Uma bíblia punk

Por MARCELO OROZCO

A recente morte do escritor e dramaturgo paulista Antônio Bivar (1939-2020) em 5 de julho fez muita gente lembrar – inclusive eu – com afeto de O Que É Punk, o pequeno (no tamanho e no número de páginas) livro que ele publicou em 1982 na “Coleção Primeiros Passos”, uma série de introdução a vários assuntos da Editora Brasiliense.

Naquela época em que o acesso a informação era muito mais restrito que hoje em nossos tempos de internet (em outros idiomas e, principalmente, em português), O Que É Punk foi importante para quem estava começando a se interessar por música, movimentos sociais, atitude, questionamentos.

Mas o livro de Bivar, por melhores que tenham sido a intenção, a ousadia e o resultado, e pela influência que teve numa geração brasileira, era limitado, o que é natural em retrospecto. Para se aprofundar sobre a história do movimento punk inglês do fim da década de 1970, a Bíblia é England’s Dreaming, do jornalista britânico Jon Savage, publicado originalmente em 1991, que andei revisitando nesses dias.

(Há uma outra obra sobre o simultâneo movimento punk americano igualmente digna de ser chamada de Bíblia sobre o estilo, mas trataremos dela em outro dia)

England’s Dreaming é um catatau de mais 600 páginas em que Savage, hoje com 66 anos e que se orgulha de ter vivido aquela ebulição punk em Londres de pertinho, reconstitui a formação, a explosão e o começo do repouso dos estilhaços do punk inglês de 1971 a 1979.

Como 1971 se o primeiro disco dos Sex Pistols, a banda punk inglesa pioneira, só saiu em 1976? É porque Savage levantou minuciosamente todos os antecedentes dos personagens participantes dessa revolução pop. E um dos principais foi Malcolm McLaren (1946-2010), o empresário e mecenas do grupo mais famoso por suas figuras de frente Johnny Rotten e Sid Vicious.

Os desocupados

Sex Pistols (Reprodução livrp England’s Dreaming)

Savage descreve os anos universitários de McLaren, seu interesse engajado em movimentos de contracultura nessa época e a relação com a namorada, a aspirante a estilista Vivienne Westwood

Também acompanha sua temporada meio acidentada como empresário tardio dos New York Dolls, uma banda americana creditada como pré-punk e que chegou às mãos dele em precoce decadência após dois ótimos álbuns. Pirado, McLaren tentou transformar os Dolls em ativistas comunistas do rock e a história não acabou bem pros envolvidos.

Até que Savage chega à boutique SEX, no bairro londrino de Chelsea, sociedade de McLaren e Westwood, que vendia roupas com design inspirado no aparato fetichista. A loja atraiu criaturas parasitárias sem mais o que fazer numa Inglaterra em crise econômica ainda mais dolorida para jovens que nem tinham tido oportunidade de entrar no mercado de trabalho.

Alguns daqueles desocupados acabaram formando um grupo de rock com seus rudimentares talentos musicais. Surgiu a ideia de que aquilo virasse uma banda para promover a loja SEX. O quarteto batizado de Sex Pistols era uma operação de “fundo de boutique”.

Só que o oportunismo autopromocional de McLaren logo saiu de controle. O rock básico dos Pistols que se tornou público com o primeiro compacto “Anarchy in the UK” mais uma turnê inglesa dos americanos Ramones (tudo isso em 1976) estimularam muitos outros jovens britânicos sem perspectivas a fazer seu próprio rock para expressar sua insatisfação com o nada que a vida oferecia. 

Os Pistols incentivaram um monte de gente a fazer sua própria coisa do seu próprio jeito sem depender de gravadoras nem da grande mídia, que determinavam o padrão da música pop (quer dizer, as corporações ainda determinam até hoje, mas até então não havia possibilidades de outras opções fora desse esquema – o punk criou essa possibilidade do independente e alternativo).

Basicamente, England’s Dreaming acaba sendo uma história rica e detalhada dos Sex Pistols, mas há muito espaço para outros participantes importantes do que virou um movimento. A narrativa acaba em meados de 1979, pouco depois da dissolução dos Pistols e antes de marcos como o álbum London Calling, do The Clash (a outra banda no topo do pódio punk), e a morte de Sid Vicious em fevereiro de 1980, o pistol que se transformou em ícone do punk apesar da incompetência musical.

Sid Vicious no metrô de Londres (Reprodução livro England’s Dreaming)

O parecer do autor

Em 2005, tive a oportunidade de entrevistar Jon Savage sobre o livro para um especial sobre cultura punk da revista Cult publicado na edição de outubro daquele ano. Do material bruto, reproduzo abaixo alguns pareceres dele sobre a obra e o punk.

“Se o punk mudou tudo, essa era a intenção. Em 1976, existia uma controvérsia sobre a cultura jovem pela visão de uma geração sem privilégios – jovem demais para ser hippie, velha o bastante para querer seu próprio tumulto. Como em toda controvérsia, ela amava o que alegava odiar e, assim, tornou-se a cultura jovem da geração seguinte – e, no final dos anos 70, já era uma instituição tanto quanto os refugos hippie que os punks tanto desprezavam.”

“O punk no Reino Unido foi talvez mais bem sucedido como um fenômeno de mídia e de percepção (daí todas aquelas músicas sobre televisão, jornais, revistas, publicidade etc.). No resto do mundo, eu presumo que o punk está junto de arquétipos da cultura jovem/romântica como os Beatles e Kurt Cobain.”

“Os Sex Pistols eram rock de verdade: tensão e relaxamento, barulho, agitação, imprevisibilidade, hostilidade. Eram fascinantes e repulsivos ao mesmo tempo, e te colocavam contra a parede. Para alguns de nós, o desafio era impossível de resistir.”

“O punk americano era mais diverso, mais musical, menos padronizado, mas NENHUM dos homens de frente desses grupos pioneiros tinha carisma para se tornar um grande astro. Johnny Rotten [vocalista dos Sex Pistols] e Joe Strummer [vocalista e guitarrista de The Clash] tinham e é por isso que tiveram sucesso.”

“Os britânicos radicalizavam o que os americanos pensavam: compare ‘eu compreendo todos os impulsos destrutivos’ [“I understand all destructive urges”, verso do Television] com ‘fique puto; destrua’ [“get pissed; destroy”, verso dos Sex Pistols]. Os grupos britânicos eram um pouco mais jovens e mais agressivos.”

“Escrevi (England’s Dreaming) porque não tinha visto qualquer relato até então (pelo menos quando escrevi em 1989) que capturasse o que eu senti e presenciei em 1976 e 1977. Foi um momento tão poderoso para mim e muitos outros que quis examiná-lo de forma extensa, mergulhar fundo no redemoinho. A narrativa parou em 1979 porque o livro já estava bem longo. Eu contei a história da primeira onda do punk britânico e foi nesse ponto que ela acabou. Para prosseguir, seria necessário outro livro.”

***

Savage também é autor de outros bons livros sobre cultura pop. Uma biografia oficial da banda The Kinks em 1984, A Criação da Juventude em 2007, e uma análise da importância de um ano específico na música em 1966 : The Year the Decade Exploded, de 2015.

Ele também publicou em 2010 um livro com as transcrições das fitas com entrevistas que fez para England’s Dreaming: The England’s Dreaming Tapes.

Em setembro, ele deve lançar um livro sobre uma banda muito importante do pós-punk: This Searing Light, the Sun and Everything Else: Joy Division – The Oral History

***

England’s Dreaming infelizmente não foi publicado no Brasil. A edição em inglês está disponível em e-book na Amazon brasileira.

2 comentários em “Uma bíblia punk

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