A Laranja Mecânica

Por MARCELO OROZCO

Um dos melhores livros sobre futebol (e sério candidato a “o melhor”) que li vai muito além do futebol. É Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football, do jornalista inglês David Winner, publicado originalmente em 2000. Ele conta como a Holanda revolucionou o esporte na década de 70, praticamente criando o jeito moderno de jogar que temos (com ajustes e evoluções) até hoje. 

O autor disseca como isso aconteceu graças a um modelo mental dos holandeses, que se reflete na arquitetura, na arte, na praticidade, no fato de ser um país abaixo do nível do mar graças a seus diques, na visão de mundo calvinista e na forma como o individualismo consegue criar um senso coletivo. E sem um pingo de sentimentalismo ou patriotismo de ocasião. “Para um holandês, chorar diante da bandeira seria considerado algo quase obsceno”, escreve Winner.

Na introdução, ele explica: 

“Se este é um livro sobre futebol holandês, você provavelmente vai se perguntar por que há páginas e páginas sobre arte e arquitetura, vacas e canais, anarquistas, pintores de igrejas, rabinos e aeroportos, mas mal menciona, por exemplo, PSV e Feyenoord [dois dos maiores clubes do país, junto com o muito citado Ajax de Amsterdã]. É justo. E a razão, suponho, é que este é menos um livro sobre o futebol holandês que sobre a ideia de futebol holandesa, algo um pouco diferente”.

Há partes muito interessantes sobre a arquitetura das casas da Holanda e sobre a funcionalidade planejada do aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, com módulos que “encolhem” e “aumentam” as dependências de acordo com o fluxo de vôos e pessoas. Também é mencionado o movimento anarquista Provo, dos anos 1960, que ajudou a transformar um país provinciano e trazer uma atitude moderna, ajustada à cultura pop ocidental vigente.

O que isso tem a ver com futebol? Muito. Os clubes holandeses, especialmente o Ajax do craque Johan Cruyff tricampeão da Europa em 1971/72/73, e a seleção da Copa do Mundo de 1974 transformaram o jogo com uma ocupação de espaços, revezamento de posições, retrações e avanços que jamais tinham sido praticados com tanta velocidade e planejamento. 

No mundial, tinha até um goleiro (que jogava com a camisa 8) que era melhor atuando como líbero com a bola nos pés que defendendo com as mãos, Jan Jongbloed – hoje, isso é praticamente uma exigência para um goleiro de alto nível, e o alemão Manuel Neuer tornou-se especialista, embora seja bom tanto com os pés como com as mãos, ao contrário do holandês.

O “John Lennon holandês”

Johan Cruyff contra a Suécia na Copa de 1974 (Reprodução)

A Holanda de 1974 pode ser chamada de primeiro time realmente pop do futebol. Foi apelidada com o nome de um filme cultuadíssimo da época, Laranja Mecânica, graças às camisas dessa cor que veste, incomum entre as agremiações até então. 

E Cruyff, inteligente, afirmativo e talvez o primeiro grande jogador a ter real noção de seu valor monetário e potencial de marketing, não era alguém que dava entrevistas na linha “futebol é onze contra onze e vamos seguir as orientações do professor”. Tornou-se um símbolo de um novo tipo de craque, além de jogar muita bola.

“Cruyff era um modelo para nós, talvez como John Lennon para os ingleses”, declara Karel Gabler (ex-técnico de categorias de base do Ajax) no livro. “Ele falava com a lógica da nossa geração. Ele percebeu que podia ganhar dinheiro e que sua carreira um dia acabaria. Ele sabia que tinha muito talento e que pagariam por ele – sua frase famosa era: ‘Quando minha carreira acabar, não poderei ir à padaria e dizer: Olá, sou Johan Cruyff, me dê pão’ “.

Arte x resultado

Apesar de tanta genialidade, como é que a Holanda nunca venceu uma Copa do Mundo? O time espetacular de 1974 foi vice tomando uma virada de 2 x 1 da então Alemanha Ocidental, que jogava em casa. O ligeiramente mais fraco esquadrão de 1978 também foi vice diante dos anfitriões, desta vez, a Argentina.

Houve um grande título na Eurocopa de 1988 com uma segunda geração de jogadores geniais, como Van Basten, Gullit e Rijkaard. Mas praticamente o mesmo time desmoronou nas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 1990, quando o ambiente interno havia mudado do companheirismo para o egoísmo e as panelinhas.

E, mais recentemente, ocorreu o terceiro vice na Copa em 2010 diante da Espanha. A última reedição atualizada de Brilliant Orange chega até esse ponto. Mais para poder dizer que essa seleção holandesa de dez anos atrás era uma traição a tudo que foi esmiuçado antes no livro.

Winner escreveu:

“O primeiro sinal de que algo poderia dar muito errado na Copa de 2010 foi um comercial de TV para o público holandês. A origem era impecável: a empresa Nike. A Nike percebeu algo que passava despercebido: a Oranje [apelido oficial da seleção holandesa] de Van Marwijk [técnico na Copa de 2010] seria diferente de todas as encarnações anteriores. […] O comercial mostrava o capitão Giovanni van Bronckhorst, os astros Wesley Sneijder, Rafael van der Vaart e outros treinando com a intensidade de soldados se preparando para a guerra. Tambores entravam com uma batida marcial. E legendas determinavam uma nova filosofia radical em letras alaranjadas: ‘Lágrimas de felicidade são feitas de suor’… ‘Destrua os egos, começando com o seu’… ‘Arrebente os corações deles, roube seus torcedores’. Os antigos individualismo, diversão e arte estavam fora. Os novos valores eram disciplina, lealdade e força. […] O legado de Cruyff era explicitamente esnobado: ‘O futebol não é Total sem vitória [Futebol Total era uma expressão usada para a seleção de 1974]‘ e ‘Uma bela derrota ainda é uma derrota'”.

Isso somado ao futebol de resultados às vezes violento (como na final contra a Espanha) fez com que a seleção da Holanda de 2010 fosse bastante rejeitada em seu próprio país. Hoje é vista como um sonho ruim, que contrasta com a devoção à prática do futebol bom e bonito. 

“Numa Copa do Mundo ou Eurocopa, 90% das equipes estão lá para ganhar”, diz no livro Leo Beenhakker, técnico da Laranja na Copa de 1990. “Mas sempre há um país que só quer mostrar o quanto é bom. E é a Holanda. Esse é nosso drama. Com todo o nosso talento, nossa técnica e habilidade, nosso futebol ofensivo, só vencemos um grande torneio [em 1988], e meio por acidente. Amamos o jogo, mas nos falta algo. Somos como um pugilista que luta muito bem, mas não nocauteia. […] Não temos o instinto matador”.

A tragédia de 1974

De todas as vezes em que a Holanda morreu na praia, a que mais dói nacionalmente é a derrota na final de 1974. Um trauma nas mesmas proporções que o Maracanazo brasileiro na Copa de 1950, embora isso não seja citado no livro. 

Winner prefere uma imagem mais dramática: “Os acontecimentos de Munique em 7 de julho de 1974 estão marcados na alma holandesa como o 22 de novembro de 1963 em Dallas para os americanos. É claro que seria indecente sugerir um paralelo entre o horrível assassinato do presidente Kennedy e a derrota num mero jogo de futebol; mas, por toda a Holanda, adultos ainda choram por causa do dia em que a Holanda perdeu a final da Copa do Mundo para seus vizinhos”.

No livro, a psiquiatra Anna Enquist diz que “1974 foi muito doloroso para todos nós. Nem podemos admitir para nós mesmos que algo assim possa ser tão importante. Mas importa muito. Ainda existe um trauma profundo e não resolvido sobre 1974. É uma dor bem viva, como um crime sem punição”.

Pelo futebol espetacular que jogava, a Holanda era favorita na final, apesar de a Alemanha estar em seus domínios. Pesava também a memória da Segunda Guerra Mundial, em que as tropas de Hitler invadiram e dominaram o pequeno país vizinho. 

Supostamente, o clima ficou pesado na véspera da final quando o jornal alemão Bild publicou uma matéria sobre craques holandeses se divertindo com mulheres na piscina do hotel da concentração. Diz a lenda que Cruyff passou a noite em claro numa D.R. com a esposa por telefone.

Mas Winner minimiza esse fato dizendo que, se a Holanda fosse campeã, teria sido esquecido em uma semana. O que pode ter sido realmente determinante foi a soberba dos jogadores holandeses logo após fazer 1 x 0 com um gol de pênalti no primeiro minuto da final.

“Queríamos gozar dos alemães. Nem pensamos nisso, mas fizemos, passando a bola de pé em pé. Nos esquecemos de marcar o segundo gol. Se você assistir o vídeo do jogo, vai ver que os alemães ficaram cada vez mais zangados. Foi nossa culpa”, diz o atacante Johnny Rep no livro. O meio-campista Willem Van Hanegem complementa: “A gente nem ligava de ganhar só de 1-0, desde que eles fossem humilhados”. 

Eis que a Alemanha empatou e fez 2 x 1 ainda no 1º tempo, com o gol meio desengonçado mas decisivo de Gerd Müller. E o resultado não se alterou no 2º tempo. E a Holanda amarga isso até hoje.

O gol da vitória alemã na final da Copa de 1974 feito por Gerd Müller (Reprodução)

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Brilliant Orange não foi publicado no Brasil. A versão mais recente em inglês pode ser comprada aqui.

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Adendo 1: Uma bela sacada do autor David Winner foi a numeração dos capítulos com sequência saltada: 5, 7, 9, 14, 10, 1, 6, 13, 2, 3, 11, 12, 16, 18, 8, 15, 4, 25…

É um tributo às seleções holandesas das Copas de 1974 e 1978. Numa época em que, na maioria dos casos, os times não tinham numeração fixa e o 1 a 11 dava referência de quem era titular de cada posição, a Holanda veio com um goleiro vestindo 8, um 2 que não era lateral-direito, um monte de 12, 13, 20 jogando, um 1 que era atacante e nem entrou em campo.

Exemplo da numeração da Holanda na Copa de 1978 (Reprodução Instagram @tomikoshi_photography)

E o supercraque Johan Cruyff usava a 14, embora tivesse todos os méritos para ser mais um dos camisas 10 geniais do futebol. Ele já trajava esse número no Ajax, sempre que o regulamento permitisse, desde 1970, quando ganhou um jogo depois de voltar de contusão e achou que dava sorte.

Apesar de parecer aleatória, a numeração holandesa se baseava na ordem alfabética dos sobrenomes dos atletas. Mesmo assim, Cruyff usou seu prestígio de astro maior e driblou esse padrão em 1974 para ficar com a 14. A federação holandesa concedeu.

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Adendo 2: David Winner, 63 anos, é autor também de Those Feet: A Sensual History of English Football e co-autor da autobiografia de Dennis Bergkamp, grande atacante holandês dos anos 1990, Stillness and Speed: My Story.

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Adendo 3: Há dois ótimos livros de gênios do futebol holandês que merecem leitura. Johan Cruyff escreveu My Turn: The Autobiography. E Ruud Gullit, campeão europeu em 1988, publicou How to Watch Football.

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