A história dos festivais por (e com) Zuza

Por MARCELO OROZCO

A manhã deste domingo (4/10) trouxe a péssima notícia da morte de um dos maiores especialistas em música no Brasil, o paulistano Zuza Homem de Mello. O pesquisador, musicólogo, produtor e jornalista se foi dormindo aos 87 anos. Profundo conhecedor de jazz e música popular brasileira, foi uma referência para qualquer um que leve o assunto a sério e tenha pelo menos um pouco da paixão que ele sempre demonstrou. 

Entre os muitos livros que ele publicou, vou destacar aqui um em que ele fez um rico panorama de um momento histórico da MPB: A Era dos Festivais: Uma Parábola. O interessante é que, ao falar de eventos como os festivais da TV Record nos anos 1960, Zuza escreveu não só como pesquisador, mas como participante dos acontecimentos.

Antes de abordar o livro, em vez de repassar a biografia de Zuza, que certamente estará em todos os obituários na mídia, apenas recomendarei o ótimo documentário Zuza Homem de Jazz, lançado em 2018. Já foi exibido no canal pago Curta! e está disponível neste link na plataforma de streaming dessa emissora, a Tamanduá.

Pôster do documentário Zuza Homem de Jazz (Reprodução)

Os primeiros festivais

Publicado originalmente em 2003 pela Editora 34 e ainda em catálogo, A Era dos Festivais: Uma Parábola é o relato mais completo de uma fase histórica da Música Popular Brasileira, a dos festivais competitivos da TV dos anos 1960 e 1970.

Os festivais acionaram profundas mudanças criativas, revelaram novos valores influentes que ainda são reverenciados mais de 50 anos depois e foram apimentados pela tensão política que o país vivia em tempos de regime militar. 

Os mais famosos e marcantes foram os da TV Record, especialmente o de 1967 (objeto do documentário Uma Noite em 67, de 2010), e os FIC da TV Globo, principalmente o de 1968 em que Geraldo Vandré cantou “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando)” para cair em desgraça definitiva com a ditadura.

Zuza estava no meio disso. Após estudar música por dois anos em Nova York, ele conseguiu um emprego na TV Record em 1959, onde ficaria por dez anos. A emissora paulista dedicou atenção especial a programas musicais justamente nessa época 

Ele reconstitui a trajetória desses festivais desde o pioneiro e esquecido realizado em 1960 pela própria Record, do qual o autor participou como assistente de Paulinho Machado de Carvalho, filho do dono da emissora e responsável por produções musicais. O evento realizado no Guarujá (SP) não deixou qualquer coisa musicalmente marcante para a história.

O formato foi retomado em 1965 por uma concorrente da Record, a TV Excelsior, líder de audiência na época, numa iniciativa do produtor Solano Ribeiro. A emissora até batizou sua edição de I Festival da Música Popular Brasileira, como se nenhum tivesse acontecido antes. 

Esse festival alcançou repercussão muito maior e a música campeã é lembrada até hoje: “Arrastão”, de Vinícius de Moraes e Edu Lobo, cantada por uma Elis Regina que começava a desabrochar como grande cantora. 

Essa edição também teve a participação de Chico Buarque de Hollanda, apenas como compositor – sua canção concorrente foi defendida no palco por Geraldo Vandré.

O autor detalha muito bem o panorama dos canais de TV da época e a participação de artistas da música em seus programas. E contextualiza a importância dessa edição da Excelsior: 

” ‘Arrastão’ deu um novo rumo para a música popular brasileira (mais tarde alcunhada MPB) e foi o ponto de partida da música na televisão, um espaço que não existia antes. A despeito de a audiência não ter sido espetacular, a partir do Festival da TV Excelsior, a música brasileira pela TV não seria mais a mesma. Os quase sonolentos programas em que um grande cantor ou cantora se apresentava durante meia hora num cenário de gosto discutível, mesmo com uma mulher admiravelmente fotogênica como Maysa, chegavam ao fim de uma era. No novo modelo, havia um outro elemento: o público”.

A Record assume

Já começando a enfrentar dificuldades por ser malvista pela ditadura, a Excelsior se atrapalhou toda para realizar sua segunda edição do festival em 1966, que teve repercussão quase nula e virou nota de rodapé. 

O pior para a Excelsior foi romper com Solano Ribeiro, o idealizador do evento na emissora. 

Ele bandeou-se para produzir outro festival nos mesmos moldes na Record, que passou a investir pesado em programas musicais de música brasileira, depois de um período em que se especializou em trazer grandes nomes da música americana e europeia entre 1959 e 1962, como relembra Zuza. Vieram Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Sammy Davis Jr., Dizzy Gillespie e Tony Bennett, entre muitos outros.

Em sua nova investida, a Record contratou o ídolo de um novo tipo de rock brasileiro, Roberto Carlos, para apresentar Jovem Guarda, e a estrela em ascensão Elis Regina para comandar um programa de MPB com Jair Rodrigues, O Fino da Bossa. Dois shows campeões de audiência. E se preparou para realizar um festival mais bombástico que o da Excelsior.

O festival da Record de 1966 terminou com um empate de músicas campeãs, as duas favoritas do público: “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, cantada por Jair Rodrigues, e “A Banda”, de Chico Buarque, com ele e Nara Leão. Zuza reconta como isso aconteceu, sendo que ele mesmo foi incumbido por Paulinho Machado de Carvalho de trancar os votos dos jurados num cofre, conforme contou no Prólogo.

Segundo o relato de Zuza, “A Banda” foi campeã dos votos do júri por 7 a 5. Só que Chico Buarque, reconhecendo o valor da canção concorrente, disse que se recusaria a receber o prêmio se “Disparada” não fosse campeã também.

FIC ocupa o espaço

Ainda em 1966, a TV Rio também criou o FIC (Festival Internacional da Canção), com a ambição de trazer artistas do exterior. A primeira edição teve êxito razoável e interessou à TV Globo, uma emissora ainda buscando se firmar, que se apossou do FIC no ano seguinte, que transformou Milton Nascimento em sucesso com “Travessia”.

Mas o triunfo de 1967 foi do festival da Record. Histórico pelo pontapé inicial da Tropicália com Gilberto Gil e Caetano Veloso misturando MPB e rock em suas músicas e pela polarização do público (por razões musicais e também políticas) em relação a vários artistas. A radicalização da plateia até levou Sérgio Ricardo a quebrar seu violão no palco após receber vaias ensurdecedoras enquanto cantava. 

Foi o maior. E o início do fim da era dos festivais, embora ainda não se soubesse. Zuza escreve: “Nesse Festival, a TV Record havia atingido o auge. Paulinho de Carvalho pressentia isso claramente. Jamais haveria outro igual”.

Para a Record, não haveria. A edição de 1968 já teve impacto reduzido. E a emissora ainda lançou outro formato de festival, a Bienal do Samba. Foi o FIC daquele ano na Globo que entrou para a posteridade. 

Zuza reconstituiu os bastidores para impedir que “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando)”, o simples hino anti-ditadura com dois acordes de Geraldo Vandré e favorito do público em todas as eliminatórias, vencesse a etapa nacional do festival por pressão de agentes do regime sobre os organizadores.

O festival da Record resistiu até 1969, quando mesmo a vitória de Paulinho da Viola com “Sinal Fechado” não bastou para que a edição fosse memorável. O FIC da Globo foi bem de audiência por mais alguns anos (embora não tão inovador musicalmente) e gerou sucessos e problemas – como o maestro Erlon Chaves, negro, sendo levado por agentes do regime para “esclarecimentos” após se apresentar cercado de belas mulheres brancas dançando de forma provocante com a música “Eu Também Quero Mocotó”, na edição de 1970. 

Mas a fórmula se esgotou e o fim dessa era veio em 1972 com o último FIC. Para quem tem curiosidade enciclopédica, Zuza incluiu em A Era dos Festivais um apêndice com a relação de todas as músicas concorrentes de todos os festivais citados no livro, além de outros que vieram depois, como os da Globo na década de 1980.

***

Outra obra de Zuza Homem de Mello com panoramas históricos da MPB merece menção e, quem sabe, texto próprio aqui no futuro: A Canção no Tempo: 85 Anos de Músicas Brasileiras, que se dividiu em Vol. 1: 1901-1957 e Vol. 2: 1958-1985. Os livros têm co-autoria de Jairo Severiano.

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A Era dos Festivais: Uma Parábola pode ser comprado através deste link

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