A realeza de Pelé por Nelson Rodrigues

Por MARCELO OROZCO

No 80º aniversário de Pelé neste 23 de outubro, o foco é no primeiro a associar o jogador ao conceito de realeza, três meses antes dele disputar a Copa do Mundo de 1958 e ser chamado de Rei pela imprensa internacional. O visionário pioneiro foi o dramaturgo e escritor pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980)

Entre peças de teatro e textos de ficção sobre vidas comuns (tudo sempre com um tom potencialmente trágico) e crônicas sobre o cotidiano e atualidades que publicava em jornais e revistas, Nelson foi prolífico ao escrever sobre futebol a partir dos anos 1950. Com seu olhar teatral, encarava o campo de futebol como um palco em que “peças” de 90 minutos ofereciam lampejos da condição humana, com seus heróis, vilões, alegrias e dramas.

Em suas crônicas futebolísticas em várias publicações (Manchete Esportiva, Jornal dos Sports, O Globo e até uma vez para a histórica revista Realidade), o olhar de Nelson podia eleger como personagem principal um árbitro que errou, um jogador que se suicidou, outro que era vaiado pelo estádio. O resultado era o que menos importava para ele, mas o brilho e a excelência com a bola eram devidamente reconhecidos por ele imediatamente.

Os escritos de futebol de Nelson foram compilados com variados recortes desde a década de 1990. O primeiro foi À Sombra das Chuteiras Imortais, publicado em 1992 pela Companhia das Letras e hoje fora de catálogo (dá para encontrar volumes usados).

Capa da edição de 1992 de À Sombra das Chuteiras Imortais

Nele está a obrigatória crônica “A Realeza de Pelé”, originalmente publicada no número 120 da Manchete Esportiva, com data de 8 de março de 1958 – a imagem de abertura deste post é a página dupla com a crônica, reproduzida da coleção da revista semanal disponível no site da Biblioteca Nacional.

O texto reaparece em outras compilações do autor, inclusive a mais recente que segue em catálogo, A Pátria de Chuteiras (Nova Fronteira, 2014).

Capa da edição de 2014 de A Pátria de Chuteiras

Na Manchete Esportiva, dirigida por seu irmão Mário Filho (sim, o homem que dá nome ao estádio do Maracanã), Nelson tinha uma coluna fixa chamada “Meu Personagem da Semana”. Naquela edição de março de 1958, ele elegeu o jovem meia de 17 anos do Santos, que tinha arrasado numa vitória de 5 a 3 sobre o América carioca num jogo pelo torneio Rio-São Paulo.     

Pelé já estava no radar nacional desde o ano anterior. Foi artilheiro do Campeonato Paulista pela primeira de muitas vezes, impressionou atuando por um combinado Vasco-Santos num torneio amistoso e estreou pela Seleção Brasileira marcando gols nos dois jogos contra a Argentina pela hoje extinta Copa Roca. Era cogitado para ir à Copa do Mundo, mas apenas como mais um candidato a uma vaga. Para muitos, ainda era apenas uma promessa.

O desprendimento teatral de Nelson fez com que ele se antecipasse a todo mundo em cerca de três meses. Ele escreveu em “A Realeza de Pelé”:

“Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: —verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: —ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor. 

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: —a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: —“ Eu.” Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: —“Eu.” Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage, e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé. 

[…]

Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente, que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau. […] Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.” 

O que aconteceu na Suécia na Copa em junho seguinte só confirmou tudo que Nelson intuiu em seu texto conferindo a Pelé uma nobreza que o resto do planeta reconheceria. 

Sua admiração por Pelé prosseguiu por anos e anos e Copas e Copas. Numa edição especial de Manchete Esportiva com um balanço do ano de 1958, ele escreveu “Pelé, colega de Miguel Ângelo, Homero e Dante” (reproduzido no livro A Pátria de Chuteiras), que trazia o trecho: “É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem: — é um gênio indubitável. Digo e repito: — gênio. Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: — ‘Como vai, colega?’ De fato, assim como Miguel Ângelo é o Pelé da pintura, da escultura, Pelé é o Miguel Ângelo da bola.”

Ainda durante a Copa e antes de o Brasil conquistar seu primeiro título mundial, Nelson espumou contra comentários negativos em relação a Pelé durante a vitória de 1 a 0 sobre o País de Gales nas quartas-de-final (com golaço do próprio Rei) feitos em transmissão de rádio pelo ex-craque Leônidas da Silva, artilheiro da Copa de 1938. A crônica está em À Sombra das Chuteiras Imortais:

“Ao terminar o jogo, Leônidas, que vive a negar os méritos do escrete, doutrinava: – “Pelé devia ser barrado!”. Pois é este, justamente este, o personagem da semana. Poderão objetar que Pelé jogou mal. Quem faz, numa quarta de final, o gol da vitória não jogou mal coisíssima nenhuma. De resto, que autoridade tem Leônidas? Contra a Rússia, ao final do primeiro tempo, vinha ele para o microfone clamar: – “Os russos estão jogando melhor! Os russos estão mais perigosos!”. Pois bem: – Leônidas foi o único camarada, em todo o Velho Mundo, que ignorou o show brasileiro. Enquanto Garrincha bailava, ele se punha a admirar o adversário! E, por isso, eu vos digo: se Leônidas nega Pelé, ótimo para este. […] Vamos deixar que Leônidas chame Pelé de perna-de-pau.”

Após a consagração de 1958, Nelson seguiu atento a Pelé no futebol doméstico e nas Copas, escrevendo sobre a contusão que o tirou logo da Copa de 1962 no segundo jogo e do fracasso total da Seleção em 1966. Mas foi na épica jornada de 1970, com a conquista do tricampeonato mundial, que o escritor retomou sua inspiração para falar do grande personagem.

Logo após a estreia com 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia, Nelson escreveu em O Globo, em 6 de junho de 1970, “O Grande Sol do Escrete” (texto reproduzido em A Pátria de Chuteiras), em que refletia sobre as apreensões pré-Copa do público, que não acreditava na Seleção e até duvidava, às vezes, de Pelé.

“Muitíssimas vezes, Pelé foi estátua e, muitíssimas vezes, foi vaia. Eu me lembro de um jogo do escrete em que jogou mal ou, como diz a gíria, jogou pedrinhas. E, no fim de certo tempo, explodia a ira da multidão. No futebol, a apoteose está sempre a um milímetro da vaia. […] A ninguém ocorria que o supercraque não precisa jogar bem. O perna de pau é que tem de se matar em campo. De mais a mais, o gênio pode ter as suas nostalgias da burrice. […]  E, em qualquer clássico ou pelada, Pelé pode fazer tudo, porque é Pelé. Se abrir a Revista do Rádio no meio do campo, estará usando um dos privilégios do gênio. Mas a multidão não perdoa, em Pelé, um passe errado. 

[…]

Fui a um sarau de grã-finos e lá ouvi alguém jurar: —“Pelé morreu para o futebol.” Chegou a correr a notícia de que seria barrado do escrete e do Santos. Ou por outra: — do Santos, não, porque seu nome ainda é bilheteria. Cheguei a imaginar que, humilhado, ofendido, ele próprio saísse da seleção. Mas diz a minha vizinha gorda e patusca: —“Nada como um dia depois do outro.”

[…]

Pelé estava ainda no campo brasileiro. Apanha a bola. E, súbito, recebe a visita do próprio gênio. Viu que o goleiro tcheco estava fora de posição, muito adiantado. Fez, então, o que não ocorreria a ninguém. De onde estava, deu um prodigioso tiro de cobertura. A TV, que não sabe fantasiar e tem o escrúpulo da mais exata veracidade, descreveu-nos o lance. 

A câmera, numa tomada por trás do gol, mostra toda a curva implacável da bola. Por um momento, ninguém entendeu. Por que Pelé não passou? Por que atirava de tão espantosa distância? E o goleiro custou a perceber que era ele a vítima. Seu horror teve qualquer coisa de cômico. Pôs-se a correr, em pânico. De vez em quando, parava e olhava. Lá vinha a bola. Parecia uma cena d’Os três patetas. E, por um fio, não entra o mais fantástico gol de todas as Copas passadas, presentes e futuras. Os tchecos parados, os brasileiros parados, os mexicanos parados —viram a bola tirar o maior fino da trave. Foi um cínico e deslavado milagre não ter se consumado esse gol tão merecido. Aquele foi, sim, um momento de eternidade do futebol. Pelé nunca foi tão alto no seu gênio. Mas por que fez isso? Simplesmente, ali o Rei se vingava das nossas vaias.”

E, no dia seguinte à conquista do título, em O Globo de 22 de junho de 1970, Nelson escreveu em “Dragões de espora e penacho” (incluída em À Sombra das Chuteiras Imortais): “Os gols brasileiros foram obras de arte, irretocáveis, eternas. A cabeçada de Pelé, na abertura da contagem, foi algo de inconcebível. Ele subiu, leve, quase alado, e enfiou no canto”. Lembrar da imagem do lance enriquece as linhas de Nelson.

Para encerrar, é interessante que, na já citada crônica “Pelé, colega de Miguel Ângelo, Homero e Dante”, publicada em janeiro de 1959, Nelson tem a humildade e a discrição de nem apontar que foi ele o primeiro a chamar Pelé de Rei depois que uma publicação francesa usou o termo: 

“Um conhecido meu veio protestar: — “Pelé não pode ser craque! Com dezessete anos, ninguém pode ser craque!”Na minha cólera, tive vontade de subir pelas paredes como uma lagartixa profissional. Mas o meu consolo foi que, ao mesmo tempo, saía no Paris-Match, que é uma revista mundial, uma vasta, erudita e compacta reportagem sobre Pelé. Lá vinha escrito: —“Pelé, rei do Brasil.” Enquanto, aqui, o brasileiro achava exagerado o próprio entusiasmo, uma revista parisiense punha o garoto brasileiro nas nuvens. Direi mais: — Paris-Match comportava-se diante de Pelé com a histeria de uma macaca de auditório.”

***

Novos ou usados, impressos ou em e-book, livros que reúnem textos sobre futebol de Nelson Rodrigues podem ser encontrados online nos links em seus nomes:

***

Capa de Pelé: A Autobiografia

Adendo 1: Há dois livros com autoria creditada a Pelé disponíveis em edição brasileira. Um é Pelé: A Autobiografia, com co-autoria de Orlando Duarte e Alex Bellos, publicado originalmente em 2006. Outro é Pelé. A Importância do Futebol, de 2014, em co-autoria com Brian Winter.

Adendo 2: Não vi Pelé jogando ao vivo. Ele se despediu do futebol brasileiro em 1974 e minha primeira ida a um estádio foi em 1975 (pelo menos, vi Sócrates nesse jogo, mas atuando pelo Botafogo de Ribeirão Preto). 

Tudo que vi do Rei foi pela TV ou vídeo, começando com as reprises de todos os jogos da Copa de 1970 pela TV Cultura de São Paulo também em 1974 – e, sim, com praticamente 7 anos de idade, fiquei impressionado com o que ele fez naquele mundial. 

Tenho meu DVD do filme Pelé Eterno e seria uma obra-prima se tivesse apenas os lances, dribles e gols. Porém, a obra sofre no total porque as imagens de jogos são entremeadas por depoimentos ou desnecessariamente laudatórios (dos outros) ou engessados, roteirizados, nada espontâneos (do próprio Pelé). Além de uma pós-produção meio questionável visualmente. Mas vale – e muito – pelos golaços.

Não, não tive a oportunidade de me encontrar pessoalmente com Pelé na minha carreira no jornalismo. No máximo, falei com o filho dele, Edinho.

E visitei a estátua dele em sua cidade natal Três Corações numa tarde chuvosa de 2018.

Estátua de Pelé em Três Corações (MG) (Acervo pessoal)


2 comentários em “A realeza de Pelé por Nelson Rodrigues

  1. Pois há um fato estranhíssimo que une os dois personagens (Nelson e Pelé) e que pouca gente sabe. Ambos não enxergavam quase nada. Pois é, tanto um quanto o outro eram terrivelmente míopes e só viam vultos. Armando Nogueira, que participou com Nelson da lendária “Resenha Esportiva Facit”, a primeira mesa redonda da TV brasileira, conta que quando ia ver um jogo com Nelson no Maracanã, era comum que, na saída do jogo, inseguro com o que devia comentar sobre o jogo que tinha (não) visto, Nelson Rodrigues lhe botasse a mão no ombro e perguntasse:
    “Armando, o que foi NÓS achamos desse jogo?”
    Pelé também não via grande coisa, só começou a usar lentes de contato depois de aposentado.

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