Memórias do mestre da animação

Por MARCELO OROZCO

Durante o hiato não planejado e indesejado de Século Pop, ao menos foi possível revisitar algumas coisas que valem a pena. Como Chuck Amuck: The Life and Times of an Animated Cartoonist, a ótima autobiografia do americano Chuck Jones (1912-2002), mestre da animação dos clássicos da Warner Bros. com Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Papa-Léguas & Coiote e o incrível Michigan J. Frog, rã-macho cantor que silenciava no palco, astro de um único episódio feito em 1955 (que o cineasta Steven Spielberg chamou de “o Cidadão Kane dos desenhos”).

Cartaz de One Froggy Evening, desenho dirigido por Chuck Jones com Michigan J. Frog (Reprodução livro Chuck Amuck)

Mais que falar de sua vida, Jones se dedicou a dissecar como se faz humor neste livro publicado originalmente em 1990 (e nunca editado no Brasil). A parte em que ele descreve cada minúcia do processo criativo de um único desenho animado de cerca de seis minutos estrelado por Patolino (Duck Dodgers no Século 24 ½, de 1953), da concepção à conclusão, serve para qualquer profissão em que seja necessário comunicar algo com qualidade, originalidade e clareza.

Chuck não era o único a animar e dirigir os desenhos da fase áurea (que vai de cerca de 1944 a 1955) produzidos para a Warner, mas foi provavelmente o mais brilhante. Os episódios das séries “Looney Tunes” e “Merrie Melodies” que tiveram sua assinatura contêm ingredientes que os tornam especiais: sarcasmo, citações culturais, brincadeiras com a linguagem, uso de música clássica, animação ágil e fora do previsível, neuroses e defeitos de personalidade.

Certamente, os desenhos eram feitos tendo crianças como público-alvo, mas esses tais ingredientes fazem com que eles sejam apreciados por adultos. É possível começar a gostar do Pernalonga na infância e ainda apreciá-lo muitas décadas depois.

Isso se deve muito à inteligência que Chuck sempre aplicou no que fazia. Seus desenhos nunca foram bobinhos, infantis no pior sentido. Como ele escreve no livro:

“Reconhecer minhas inépcias sempre me levou a uma compreensão melhor de minha profissão. Confusões, enganos e erros de julgamento são a essência, a textura do humor.”

“‘Por que os animadores usam animais?’ Pela mesma razão que Esopo, La Fontaine, Beatrix Potter e Kenneth Grahame: é mais fácil e mais crível humanizar animais do que humanizar humanos.”

“A personalidade sempre vem primeiro, antes que a representação física. (…) Não somos o que aparentamos. Não somos nem mesmo como falamos. Somos como agimos; em outras palavras, nossas personalidades. E nossas personalidades se formam pelo que pensamos, de onde viemos, o que vivemos. (…) E essa personalidade é única em cada um”.

“Comédia é quase sempre feita do ordinário, da preocupação com assuntos e ambições simples, e conquistas e ambições ordinárias.”

“Somos todos infelizmente e desesperadamente esperançosos. Em algum nível, somos todos avarentos, malvados, traiçoeiros, invejosos, ciumentos – mas conseguimos manter a maioria dessas características encantadoras bem enterradas e sob controle. Se uma delas escapa, somos tragédia. Se as deixamos sob controle, continuamos comédia.”

“‘De onde você tira as ideias?’ Esta é a pergunta mais comum feita por aspirantes a animadores, roteiristas, diretores. (…) Tem uma prateleira, um arquivo onde ideias congeladas ou resfriadas são guardadas, esperando pelo degelo? Sinto-me grato de responder sincera e honestamente: eu não sei de onde vêm as ideias.”

“Todas as ideias me parecem baseadas em variações observáveis do comportamento humano. Pernalonga está apenas e tão somente tentando se manter vivo num mundo de predadores; Hortelino Trocaletra não se considera um predador, mas um esportista – ele caça apenas pela emoção disso; Patolino só tenta se dar bem; Gaguinho adulto é um mero espectador confuso da humanidade; Pepé Le Pew apenas tenta arrumar uma garota; o Eufrazino Puxa-Briga de Friz Freleng tenta controlar seu temperamento desastroso; Coiote e Frajola só querem algo para comer.”

Pernalonga em desenho de 1989 de Chuck Jones usado na capa de Chuck Amuck (Reprodução)

Animadores e executivos

As histórias do cotidiano dos animadores e criadores e seus conflitos com executivos obtusos são contadas deliciosamente por Chuck. Por exemplo: num raro almoço com os principais animadores, Harry Warner, um dos donos da Warner Bros., disse que nunca fez ideia de onde ficavam os estúdios em que seus desenhos de sucesso eram feitos. 

“A única coisa que sei é que fazemos o Mickey Mouse“, proferiu o patrão Harry. Constrangidos, os animadores prometeram manter o sucesso de Mickey. “Friz Freleng [outro dos grandes animadores da Warner] sustenta que os irmãos Warner implicitamente acreditaram que fazíamos o Mickey Mouse até 1963 – quando, chocados ao descobrir que não fazíamos, eles fecharam o estúdio”, brinca Chuck.

Pior era o caso de um certo Eddie Selzer, colocado por Jack Warner no comando da produção dos desenhos. Segundo Chuck, o executivo era um cara que odiava risadas, mas achava que sabia tudo sobre animação.

[Eddie] exigia ver todos os roteiros antes do início da produção, imitando seu chefe Jack Warner. Jack sempre exigia os roteiros, embora nunca tenha sido provado que ele soubesse ler. (…) Embora Eddie tenha me dito que não havia nada de engraçado num gambá que falava francês e combateu que o usássemos, ele graciosamente aceitou como seu o Oscar que Pepé Le Pew ganhou em 1950″, lembra Jones, bem ao seu estilo de humor. 

Patolino em esboço de Chuck Jones para abertura de capítulo de Chuck Amuck (Reprodução livro)

Processo criativo

É especial o capítulo em que Chuck disseca o processo de produção de um desenho do Patolino como o herói espacial Duck Dodgers (sátira a Buck Rogers, antigo personagem de quadrinhos e do seriado de cinema Buck Rogers in the 25th Century). Um método de trabalho que se aplicava às outras produções também.

Neste exemplo, Chuck relembra as etapas. Aqui, uma breve lista, sem as minúcias descritas no livro. Apenas para se ter uma noção. 

Primeiro, as definições:

1- A IDEIA

2- OS PERSONAGENS

3- O QUE ACONTECE

4- O AMBIENTE

Depois, o desenvolvimento:

I- O ENREDO

II- A JAM SESSION DOS CRIADORES (uma reunião para enriquecer o roteiro com sugestões)

III- O STORYBOARD (cada cena é esboçada antes de ir para a arte-final)

Por fim, depois de cada quadro ganhar arte-final, ainda vêm as etapas de trilha sonora (música, efeitos e dublagem).

Com seu bom humor e filosofia de vida, Chuck Jones deixou um testamento criativo. No final, ele se orgulha de um elogio feito por outro grande nome, o escritor e roteirista de ficção científica Ray Bradbury.

“Talvez a citação mais exata a meu respeito tenha sido dita por Ray Bradbury na festa de seu 55º aniversário. Perguntaram ‘O que você quer ser quando crescer?’ Ray respondeu: ‘Quero ter 14 anos como o Chuck Jones’.”


Chuck Amuck: The Life and Times of an Animated Cartoonist não foi publicado no Brasil. Em inglês, pode ser comprado em e-book ou versão impressa na Amazon.


O título Chuck Amuck é citação do desenho Duck Amuck (no Brasil, Pato Furioso), de 1953, uma obra-prima de liberdade criativa em que Chuck Jones se diverte avacalhando Patolino ao desenhá-lo com visuais bizarros e colocá-lo em situações absurdas.

Patolino no desenho animado Duck Amuck, de Chuck Jones (Reprodução)

***

Depois de um longo intervalo em Século Pop, este post vem dar um encerramento ao tétrico ano de 2020. Desejo a todos os leitores que chegaram até aqui um 2021 pelo menos um pouco melhor, se não for pedir muito. 

Afinal, como escreveu Chuck Jones numa frase citada acima no texto: “Somos todos infelizmente e desesperadamente esperançosos”.

2 comentários em “Memórias do mestre da animação

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