A primeira estrela pop brasileira

Por MARCELO OROZCO

Carmen Miranda (1909-1955) foi a primeira superstar do Brasil. Seus discos por aqui fizeram um sucesso esmagador durante toda a década de 1930. E, nos anos 1940, embarcou numa carreira em Hollywood que a transformou em objeto de culto que ainda persiste, graças à figura ímpar, exótica e à fantasia de baiana estilizada. Sua morte precoce completa 65 anos neste 5 de agosto. E, felizmente, quem contou sua vida foi o mineiro Ruy Castro, um dos melhores biógrafos do país, em Carmen: Uma Biografia, publicado originalmente em 2005 pela Companhia das Letras.

Castro, 72 anos, é autor de pelo menos outras duas bios magistrais, O Anjo Pornográfico (1992), sobre o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, e Estrela Solitária (1995), sobre o craque Garrincha. Além da “biografia” de um estilo musical, a Bossa Nova, em Chega de Saudade (1990).

A nostalgia de Castro pelos tempos que viveu ou nos quais gostaria de ter vivido (ele publicou recentemente livros sobre o Rio de Janeiro dos anos 1920 e escreveu em 2012 um delicioso livro sobre o Flamengo, seu time de coração) pode às vezes ser um entrave em suas colunas no jornal Folha de S. Paulo. Mas só ajuda em seu trabalho de biógrafo e historiador.

A memória afetiva de Castro faz com que ele consiga desencavar lembranças nem sempre bem documentadas ou fáceis de pesquisar para enriquecer seus textos. E sua fluência na escrita, bem-humorada, rica nas descrições e nas contextualizações, torna um prazer ler seus livros.

Tudo isso está presente em Carmen: Uma Biografia. Ele cria panoramas que nos dão o clima do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século 20 e do star system de Hollywood nos anos 1940 e 1950. A riqueza da música brasileira produzida na década de 1930 está bem registrada, já que Ruy não fala só dos discos de Carmen, mas de muitos outros artistas e compositores.

Hit recordista

Carmen nasceu em Portugal em fevereiro de 1909, mas chegou ao Rio de Janeiro com a família no fim daquele mesmo ano, com apenas dez meses. Portanto, era uma brasileira em tudo, menos no local de nascimento.

Moça animada, comunicativa, que adorava falar e cantar, foi parar na carreira artística aos 20 anos. E logo conseguiu um hit de proporções monumentais: “Ta-hí (Pra Você Gostar de Mim)”, com arranjo de Pixinguinha e sucesso dos Carnavais de 1930 e 1931 (algo inédito, já que as marchinhas naqueles tempos tinham um ciclo de vida que durava de janeiro até a Quarta-feira de Cinzas). 

Foi um disco que vendeu, na época, astronômicas 35 mil cópias – Castro, no livro, calculou que seria o equivalente a 3,5 milhões de cópias de 2005 (considerando essa projeção, seria o segundo disco de maior vendagem da história fonográfica no Brasil, perdendo apenas para o álbum Xou Da Xuxa 3, de 1988, que vendeu 3,7 milhões). 

Por esse disco de 78 rotações, Carmen recebeu em 1930 o equivalente a 500 dólares daquele tempo (cerca de 8 000 dólares de hoje).

O estúdio rústico

Castro também descreve os processos de produção musical de então, com o avanço tecnológico da gravação elétrica, que beneficiava cantores de voz pequena, ajudando Carmen – que não era uma cantora de extensão vocal ou técnica comparável ao padrão estabelecido décadas depois na MPB por Elis Regina ou Gal Costa, mas era charmosa e sabia comunicar uma letra como poucas.

É até hilário como ele descreve uma sessão de estúdio típica dos anos 1930: 

“Direto numa mistura de goma-laca com cera de carnaúba, de uma só vez, com cantor e orquestra juntos, diante de um único microfone – o cantor, com a boca bem perto dele, e a orquestra, logo atrás; terminada sua parte, o cantor tinha de se agachar ou de sair da frente, para não bloquear o som da orquestra”. 

Um cenário que parece inacreditável numa era em que softwares de gravação permitem que uma pessoa faça sozinha um álbum inteiro de alta qualidade sonora.

A Pequena Notável

Carmen se tornou a maior artista brasileira com uma sequência de sucessos ainda clássicos (“Na Batucada da Vida”, “Na Baixa do Sapateiro”, “No Tabuleiro da Baiana”, “Mamãe Eu Quero”, “Camisa Listrada”, “O Que É Que a Baiana Tem?”). Em dez anos só no Brasil, ela gravou 281 músicas.

Além dos discos, Carmen estrelava shows no Cassino da Urca (quando o jogo era legalizado no país) e fazia filmes da Cinédia, reforçando ainda mais sua fama. Também foi construindo aos poucos seu visual nessas apresentações, com os sapatos plataforma (com os quais ela tentava disfarçar seu 1,52 m de altura, que lhe rendeu o apelido de A Pequena Notável), os balangandãs, o turbante.

A expressividade de Carmen atraiu a atenção de americanos do meio artístico que visitavam o Rio. E eis que ela foi levada para os Estados Unidos em 1939. Primeiro por um agente da Broadway em Nova York, mas logo Hollywood a abraçaria.

Bananas

Carmen Miranda no musical de Hollywood Entre a Loura e a Morena, de 1943 (Reprodução)

Carmen abriu mão de sua carreira brasileira para investir na aventura americana. Digamos que deu certo. Ela não fez um grande filme, mas foi consistente em comédias leves com números musicais e criou uma figura que deixou uma marca permanente na história do cinema.

Essa trajetória americana criou uma grande mágoa entre a estrela e o Brasil. Um show de retorno à pátria amada no Cassino da Urca em 1940 teve uma recepção tão gélida de uma plateia de grã-finos que Carmen cantou apenas quatro músicas e saiu chorando – e carregou essa tristeza pelo resto da vida. E motivou que ela gravasse “Disseram Que Eu Voltei Americanizada”.

Castro considera que o melhor filme dela foi Entre a Loura e a Morena (The Gang’s All Here, de 1943), que tem a bizarra cena com um balé erguendo bananas gigantes em volta da cantora durante a música “The Lady in the Tutti Frutti Hat” – talvez o momento mais relembrado e reprisado de Carmen em Hollywood. Obra do diretor e coreógrafo Busby Berkeley, notório pela grandiosidade e pelos exageros visuais.

Aí está o clipe do filme:

A reta final

Condenada a sempre fazer o mesmo tipo de papel, Carmen começou a curva descendente no pós-Segunda Guerra Mundial. Mas sempre pintava alguma coisa para fazer no show business americano, mesmo que os filmes começassem a escassear.

Ela também embarcou no típico vício hollywoodiano em anfetaminas e barbitúricos para se animar e para dormir, com o consumo progressivamente excessivo de álcool um pouco depois.

E, depois de tantas paixões, namoros e casos com homens casados, todos frustrados e frustrantes, resolveu se casar em 1947 com um certo Dave Sebastian, um parasita alcoólatra que é o “vilão” do livro de Ruy Castro. Perto de fazer 40 anos, Carmen achou melhor finalmente ser uma esposa, mas não foi a melhor sombra para amarrar seu burro.

A vida com Sebastian passou por separações e, após reconciliações, começaram a dormir em quartos diferentes. O divórcio seria uma opção se Carmen (bem como toda a sua família) não fosse muito católica – e, naqueles tempos, divórcio era inadmissível. Muitas vezes foi sua própria mãe quem fez lobby para que Carmen voltasse para ˜seu marido”.

O desgaste fez com que ela viesse passar longas férias no Brasil para logo retomar a rotina nos EUA. Seu último compromisso acabou sendo uma participação no The Jimmy Durante Show, série do comediante que dava nome ao programa da TV americana. Na época, quando os programas não eram feitos ao vivo, eram filmados em película, já que ainda não existia videoteipe.

Carmen filmou sua participação na noite de 4 de agosto de 1955. No meio de um número de dança, caiu de joelhos. Castro dissecou a cena na biografia de forma impressionante:

“Imagens estáticas depois retiradas do filme e muito ampliadas mostram que, quando Carmen dobrou os joelhos, seus olhos se reviraram por um segundo. A boca adquiriu um desenho que nunca tivera. Seus olhos e sua boca, e toda a sua expressão naquele segundo, já eram os da morte. Especulou-se que Carmen tivera ali um colapso. Mas ela não levou a mão ao peito nem se queixou de dores – disse apenas que tivera ‘falta de ar’.”

Carmen voltou para casa, recebeu amigos numa pequena festinha e se recolheu, deixando os convidados ainda por ali. No caminho do banheiro da suíte para a cama, desabou com um “infarto maciço”, como descreve Castro. Ninguém na sala animada a ouviu. Era madrugada de 5 de agosto. Só foi encontrada de manhã. Tinha 46 anos. Seu funeral no Rio atraiu multidões que não quiseram saber se ela tinha ficado ou não americanizada.

***

Carmen: Uma Biografia pode ser comprado on-line aqui.

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